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Cana, Açúcar e Etanol - Perspectivas 2027

5 novembro 2026 12:00 RaboResearch

Chuvas atípicas no centro-sul ao longo da safra 2026/27 complicaram a colheita, prejudicando a produção de açúcar, que poderia ficar até 8% abaixo da safra anterior. Com menor disponibilidade de açúcar brasileiro para exportação no 1°S de 2027, junto com safras menores previstas na Índia e Tailândia, até outubro 2026 todas as telas do contrato No. 11 de 2027 tinham subido acima de 19 US c/lp, um nível inimaginável no início da safra. Mesmo com uma safra grande e mais açucareira projetada para 2027/28 no centro-sul, o RaboResearch projeta um déficit global para o ano-safra internacional de 2026/27 (out-set).

Intro

Choveu a cântaros em 2026 – e daí?

As perspectivas para o setor de cana em 2027 começaram a mudar no segundo semestre de 2026. No final de julho, o mercado internacional começou a perceber tanto o impacto das chuvas atípicas ao longo dos primeiros meses da safra 2026/27 sobre a moagem, o mix e a produtividade dos canaviais quanto as possíveis consequências da continuidade dessas condições climáticas pelo restante do ano.

Até o final de setembro de 2026, a moagem no Centro-Sul atingiu 482 milhões de toneladas, conforme o MAPA, levemente abaixo dos 490 milhões de toneladas moídos no mesmo período da safra 2025/26. Em contraste, a produção de açúcar até o final de setembro de 2026, de 28,9 milhões de toneladas, ficou 4,6 milhões de toneladas abaixo dos 33,5 milhões de toneladas da safra 2025/26.

Embora o preço em Nova Iorque tenha pegado o elevador e subido rapidamente de 14,5 US c/lp para mais de 20,0 US c/lp em decorrência desses sinais do Brasil, a prioridade das usinas no segundo semestre foi maximizar a moagem, objetivo incompatível com a maximização da produção de açúcar. Enquanto isso, o clima ainda ameaça frustrar o esforço do setor para moer toda a cana disponível no campo em 2026/27.

O resultado de tudo isso é que o mercado teve de reavaliar suas expectativas para a produção de açúcar no Brasil na safra 2026/27. Isso contribuiu para zerar um excedente global inicialmente projetado para o ano-safra internacional de 2025/26 (out-set), e baixando o volume de açúcar brasileiro que se esperava estar disponível para exportação no primeiro semestre de 2027. Por isso, em outubro de 2026, os contratos de 2027 em Nova Iorque registravam preços inimagináveis no início da safra, em abril de 2026. O que isso sinaliza sobre as expectativas para a safra 2027/28 no Centro-Sul?

A safra 2027/28 no Centro-Sul poderia bater recordes, caso alcançasse 655 milhões de toneladas ou mais, com as chuvas de 2026 criando condições para uma produtividade elevada em 2027, além de possivelmente haver entre 20 e 30 milhões de toneladas de cana bisada a moer.

Com o preço do açúcar em alta, as usinas têm corrido para recuperar o tempo perdido na fixação de preços para a safra 2027/28. A oferta de etanol deve continuar crescendo com a expansão da produção de etanol de milho, pressionando os preços do combustível, e é grande a chance de 2027/28 ser uma safra açucareira. O RaboResearch projeta que a produção de açúcar no Centro-Sul alcance 37,4 milhões de toneladas em 2026/27. Caso a safra 2027/28 atingir 655 milhões de toneladas, com um mix de 49,5% destinado ao açúcar, isso poderia gerar 42,5 milhões de toneladas de açúcar. Será que o mercado global conta com um aumento dessa magnitude?

A resposta vem da Ásia. É claro que a Tailândia, o segundo maior exportador de açúcar do mundo, produzirá menos açúcar na safra 2026/27, que se inicia no último trimestre de 2026. Mas isso parece ter menos relação com o El Niño e ser muito mais consequência da substituição de áreas plantadas. Os produtores de cana optaram por plantar menos cana e mais cassava (mandioca), em razão do baixo preço projetado para a cana e do forte aumento do preço dos fertilizantes.

Na Índia, as monções têm ficado muito abaixo do normal na região oeste do país. Em outubro, o governo determinou que o setor de cana deveria maximizar a produção de açúcar, zerando sua contribuição para a produção de etanol combustível em 2026/27. Fontes locais projetam a produção em 26,5 milhões a 27,0 milhões de toneladas, ante 28,0 milhões de toneladas, após destinar 2,8 milhões de toneladas ao etanol.

Se as expectativas de produção abaixo de 28,0 milhões de toneladas se concretizarem, a necessidade de ampliar as importações em 2027 será quase inevitável. Mas nem toda a Ásia espera uma produção menor. Depois de produzir 13,0 milhões de toneladas de açúcar em 2025/26, sua maior safra em 12 anos, a China, que disputa com a Indonésia o posto de maior importador de açúcar do mundo, parece prestes a manter esse nível de produção em 2026/27. Isso reduz significativamente sua necessidade de importação.

Juntando tudo, o RaboResearch projeta um déficit global de 2,2 milhão de toneladas para o ano-safra internacional de 2026/27, sugerindo que um aumento da produção de açúcar no Brasil em 2027 não necessariamente criaria um desequilíbrio no mercado internacional. E não se pode descartar a possibilidade de um choque causado pelo El Niño em um dos grandes países produtores da Ásia. Enquanto isso, os fundos, que turbinaram o rali dos preços em agosto, poderiam exercer pressão baixista caso houvesse uma mudança de sentimento ou um choque macroeconômico. A projeção preliminar do RaboResearch para o preço em Nova Iorque em 2027 é de 17,0 a 19,0 US c/lp.

Enquanto isso, o conflito no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz gerando estresse no mercado de petróleo e derivados. O governo brasileiro reagiu inicialmente à elevação dos preços internacionais da gasolina por meio de um subsídio, mas, em setembro, retirou o subsídio e, em seu lugar, suspendeu os impostos federais.

A partir de setembro, também foram adotadas medidas para o etanol: isenção de impostos federais (R$ 0,19/l) e subsídio de R$ 0,43/l aos produtores de etanol hidratado. Essas medidas foram prorrogadas de 10 de outubro a 9 de novembro, deixando a próxima decisão para depois da eleição.

O caminho dos preços da gasolina e do etanol em 2027 é muito nebuloso. É impossível prever a duração do conflito no Oriente Médio. Ao mesmo tempo, é questionável até que ponto a manutenção das medidas em vigor para suavizar os preços na bomba pode ser sustentada diante da necessidade crescente de ajuste fiscal.

Conforme as autorizações da ANP para novos projetos de etanol de milho, há mais de 3,0 bilhões de litros de capacidade entrando em operação em 2027, acrescentando cerca de 2,2 bilhões de litros à produção nacional em 2027/28 e elevando a produção de etanol de milho para estimados 14,0 bilhões de litros. Enquanto isso, se a moagem de cana no Centro-Sul em 2027/28 chegar a 655 milhões de toneladas, com um mix de 49,5% destinado ao açúcar, a produção de etanol de cana deverá ficar em 26,8 bilhões de litros, levemente acima dos 26,6 bilhões de litros projetados pelo RaboResearch para 2026/27.

Inúmeras incertezas pairam sobre 2027: o cenário global e seu impacto nos custos de diesel e fertilizantes; o cenário local pós-eleição e seu impacto sobre o câmbio, os juros e as intervenções governamentais no mercado de combustíveis. A recuperação do preço do açúcar em 2026 pode ser o salvo-conduto para o setor de cana enfrentar os desafios de 2027.

Pontos de Atenção:

    Embora as usinas do centro-sul pretendem estender a colheita até dezembro de 2026, e poderiam iniciar a nova safra ainda em março se o clima permitir, a chance da produção de açúcar em 2026/27 ficar abaixo de 37,5m toneladas é alta. Se chover muito, até atingir 37,0m toneladas poderia virar difícil.

    A subvenção ao etanol hidratado alterou a atratividade relativa para as usinas em favor do hidratado, e diminuiu a oferta de anidro. O setor precisa reverter esse desequilíbrio para evitar que coloque em xeque a mistura obrigatória de 32%.

Balanço global de açúcar

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Fontes: Bloomberg, Rabobank

Preços de equivalência: açúcar e etanol

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Fontes: Bloomberg, Rabobank

Variação anual da produção nacional de etanol

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Fontes: Bloomberg, Rabobank

Cenários: açúcar e etanol, centro-sul, 26/27

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Fontes: Bloomberg, Rabobank

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