A próxima revolução verde

Artigo publicado em junho na revista Globo Rural, escrito por Luiz Fernando do Amaral, gerente de Responsabilidade Socioambiental Corporativa do Rabobank.

Já deixou de nos espantar o fato de o Google fazer anúncios de agência de viagens justamente quando estamos planejando nossas férias. Isso ocorre em função de algoritmos que analisam volumes infindáveis de dados para nos entregar soluções e respostas prontas.

Porém, há também vantagens significativas nesse processo. A coleta e processamento de quantidades incríveis de informação, definida como big data, contribuirá para o desenvolvimento sustentável ao permitir que a sociedade seja cada vez mais eficiente em todos os aspectos da vida cotidiana.

A pedra fundamental é a internet móvel. Tal integração somente será possível se nossos celulares, carros, tratores e geladeiras estiverem conectados. Precisaremos de cada vez mais acesso à rede mundial inclusive no campo. Por exemplo, algumas cidades nos PUA estão buscando integrar toda a informação de suas infra-estruturas de transporte através da internet, permitindo que um ônibus aguarde pelo trem atrasado ou que os faróis se regulem automaticamente de acordo com o fluxo. Imagine a redução do congestionamento, do consumo de combustível e do tempo perdido.

Na agricultura não será diferente. Na década de 1960 ocorreu a chamada Revolução Verde, liderada pelo agrônomo Norman Borlaug. Agora, a compilação e análise de trilhões de dados permitirá uma inovação semelhante. A próxima revolução verde no campo será informacional,  A agricultura de precisão já é uma realidade. Na hora da colheita, o maquinário é pilotado quase que automaticamente.

Também é possível utilizar fertilizantes e outros insumos de maneira controlada: aplica-se mais onde precisa e menos onde não precisa. Agora, imagine que o trator se conecte à internet, cheque as previsões do tempo, o preço do milho em Chicago, informe a acidez do solo e o nível de infestação de pragas para uma base de dados global.

Um software poderia sugerir colher um talhão para aproveitar o bom preço, deixar outra área receber uma última chuva, recomendar mais uma aplicação de calcário e prever o nível de infestação na próxima safra! O mais interessante é que, quanto mais gente usando, mais inteligente o sistema fica, graças à maior abundância de dados e ã criação de novos modelos estatísticos. O acesso a redes eficientes de telefonia e internet móvel será cada vez mais importante.

Se há problemas com sinais das operadoras nos grandes centros, imagine no campo. A falta de uma rede confiável já é um gargalo importante! O sistema federal para entrega do Cadastro Ambiental Rural (CAR) é similar ao da Receita Federal para a declaração do imposto de renda, sendo feito de forma virtual.

A falta de internet no interior poderá impactar negativamente o (CAR). É provável que um dos melhores investimentos para a sustentabilidade da agricultura será na infra-estrutura de comunicação no campo. Isso não é apenas para a questão ambiental Um estudo da OCDE, um organismo internacional para o desenvolvimento, indicou que um aumento de 10% na penetração da internet de alta velocidade num país gera crescimento econômico adicional da ordem de 1,5%.

A semente para a nova Revolução Verde será o acesso irrestrito e eficiente ao compartilhamento virtual de informações. Esse objetivo deve fazer parte de uma política pública de longo prazo para a sustentabilidade no campo. A partir daí, a inventividade humana será capaz de aflorar. Aplicativos e algoritmos serão desenvolvidos para tornar o uso de recursos para a agricultura cada vez mais eficiente. A próxima Revolução Verde não será analógica, mas sim digital. Passados velhos estereótipos, chega a vez dos nerds” e “geeks”, os ativistas ambientais do futuro.