O Brasil no cenário mundial

Revista Dinheiro Rural

“Não há dúvidas de que o Brasil vai ser um ator de grande importância para alimentar o planeta”, afirma Berry Marttin, responsável Global pela área Rural do Rabobank. Berry, que é brasileiro e hoje reside na Holanda, país sede do Rabobank, comenta em entrevista para a Revista Dinheiro Rural como o banco avalia o setor financeiro e agrícola do Brasil, expectativas de crescimento, gargalos do setor, bem como a importância da sustentabilidade nos processos produtivos e como o Rabobank tem contribuído para o agronegócio no mundo todo.

O brasileiro Berry Marttin, filho de um fazendeiro do interior de São Paulo, é o res-ponsável global de agronegócio no conselho de gestão do Rabobank International, criado em 1989, na Holanda, como uma cooperativa bancária de produtores agrícolas. Hoje presente em 47 países, o banco tem ativos da ordem de € 731,7 bilhões, dos quais, no ano passado, € 88 bilhões estavam em carteiras de agronegócio. Formado em administração na Fundação Getulio Vargas e morando em Haia, na Holanda, desde 1990, Marttin fica de olho no Brasil. Em entrevista à DINHEIRO RURAL, ele disse que o País precisa cuidar de sua imagem e que seu principal problema é a falta de mão de obra qualificada. "Logística, com dinheiro, se resolve em cinco anos", diz Marttin. "Mas formar pessoas leva uma geração."

DINHEIRO RURAL | Na visão do Rabobank, como o mundo avalia o Brasil?
BERRY MARTTIN | Não há mais dúvidas de que o Brasil vai ser um ator de grande importância para alimentar o planeta. Amaneira com que o mundo tem olhado para o Pais não pode ser subestimada. Nos últimos governos, com os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, e agora com a presidenta Dilma Rousseff, houve um esforço gigantesco para trazer a classe média para o consumo. Hoje, o Brasil é realmente um modelo mundial de controle de finanças e tem muito respeito de todo o setor financeiro. O País não é mais visto como um milagre, mas como fruto de uma política macroeconômica consistente. O grande desafio, agora, é administrar as oportunidades abertas ao País. Elas são tantas que, às vezes, é, fácil se perder. 

DINHEIRO RURAL | Os investimentos de longo prazo no Brasil são compatíveis com as expecta¬tivas de crescimento?
BERRY MARTTIN |  Ainda não. Acho que os estrangeiros precisam entender e se acostumar com o Brasil como um todo. No momento em que isso ocorrer; os investimentos vão aumentar em todos os setores do agronegócio. Nos anos de 1980 1990, os estrangeiros viam apenas oportunidade de crescimento na produção. Essa visão está mudando lentamente para a América Latina, e mais especificamente para o Brasil. Está se criando uma compreensão mundial de que o País deve ser conhecido e entendido na sua grandiosidade.

DINHEIRO RURAL | A logística é o atual grande gargalo do País?
BERRY MARTTIN | Não, o grande gargalo do Brasil é a mão de obra qualificada. O grande investimento que o País precisa fazer para o futuro é a capacitação da mão de obra.

DINHEIRO RURAL |   E a falta de estradas, portos, aeroportos e armazéns para escoar a produção agrícola?
BERRY MARTTIN | É outro problema. A logística pode ser resolvida com dinheiro. Fluxo de capital é uma coisa a ser organizada. Se o problema são aeroportos e estradas, é só colocar dinheiro que em dois ou três anos será resolvido. Mas o fluxo de mão de obra, demora uma ou duas gerações para se organizar. Para se formar um enge-nheiro são necessários 25 anos. 

DINHEIRO RURAL |   Tratando se de futuro, a previsão de que os alimentos fiquem cada vez mais caros não cria um cenário ruim no longo prazo?
BERRY MARTTIN |  É difícil dizer o que é caro. Descontada a inflação do período, na década de 1970 os alimentos eram mais caros que hoje. O que está acontecendo é que os estoques do mundo inteiro estão ficando menores. E, quando os estoques não estão em balanço com a demanda, há aumento de preços. Hoje, os preços médios estão mais altos e mais voláteis na comparação com as décadas de 1980-1990, período em que ficaram bem estáveis. Os preços, que começaram a subir com o boom asiático, têm, apresentado oscilações de 30% a 440%.

DINHEIRO RURAL |   É possível conviver com isso?
BERRY MARTTIN | Há um cenário mundial completamente mudado e o produtor tem de se adaptar. Primeiro, em suas previsões, precisa contar com a volatilidade dos preços agrícolas. Segundo, a demandavas continuar crescendo mais rapidamente que a oferta. Há um lado bom nisso tudo. Quem produzir vai ter mais retorno e é provável que se sinta incentivado a investir em tecnologia para aumentar a produtividade no campo. O ciclo virtuoso começa a acontecer.

DINHEIRO RURAL |   Há uma discussão sem precedentes no mundo sobre sustentabilidade nos processos produtivos. Qual a política do banco para os tomadores de crédito?
BERRY MARTTIN |  Uma coisa é certa: temos de reconhecer que não há mais terras aráveis em quantidade. Não conseguiremos colocar muito mais terras em produção, erva cima do que já existe hoje. O desafio atual dos fazendeiros, que também é o nosso desafio, é como dobrar a produção com menos recursos ambientais. A tecnologia já existe. É possível irrigar por baixo da terra, há satélites para determinar o que e quando plantar e colher no momento certo. O Rabobank apoia os produtores para que eles tenham acesso a técnicas e manejo agrícolas. Mas é preciso que haja vontade da parte deles. O banco tem uma lei se o produtor não quer mudar, ele não está olhando para o futuro e por isso não interessa à instituição um relacionamento de crédito nesse nível.

DINHEIRO RURAL | Mas parece que não se cobra dos demais países o mesmo comportamento em relação ao meio ambiente que se exige do Brasil.
BERRY MARTTIN | O discurso ambiental não é só para o Brasil. O que acontece é que o País tem uma biodiversidade muito grande e as imagens de derrubadas de florestas, que vêm de décadas passadas, foram muito duras e permanecem na cabeçadas pessoas. Hoje, o Brasil é um dos mais avançados em questões ambientais, mas o mundo ainda não viu isso. Sempre digo aos líderes do agronegócio do Brasil que eles precisam falar mais sobre o que mudou no País nas duas últimas décadas. Na Europa e nos Estados Unidos, o Brasil ainda é visto como o país da motosserra. 

DINHEIRO RURAL | Terras para estrangeiros têm sido tema de discussões acaloradas no Brasil. Como o banco tem visto a questão?
BERRY MARTTIN |  Para ser bem honesto, nós não somos parte dessa discussão. O que vemos é que no mundo inteiro há essa mesma preocupação em relação às terras. A discussão existe na Nova Zelândia, na Austrália, na. África. Acho que o compromisso que deve existir é o de produzir alimentos. Se há pessoas dispostas a investirem um país, dentro das leis, é preciso ter mecanismos de apoio.

DINHEIRO RURAL | Qual a estratégia do banco para crescer em países que podem ser grandes produtores e consumidores de alimentos?
BERRY MARTTIN | Nós olhamos o agrozaegócio como uma cadeia do começo ao fim. Financiamos a produção e, ao mesmo tempo, investimos no atacado por acreditarmos que o consumo aumentará muito. Já abrimos bancos na India, China e Indonésia, locais em que haverá um desenvolvimento muito grande no processamento e consumo de alimentos. Também apostamos na expansão das tradings.

DINHEIRO RURAL |   Qual o mapa da expansão mundial de alimentos?
BERRY MARTTIN | Acreditamos em cinco regiões como grandes celeiros, com capacidade de superávit agrícola para exportação. Esses celeiros estão em parte da Austrália, na região central dos Estados Unidos, na Argentina e no Brasil, mais a região do Mar Morto   especialmente a Rússia e Ucrânia   e na África, numa região em torno do Centro Sul do continente, incluindo África do Sul, Zâmbia e Quênia. Do outro lado, há regiões que, claramente, vão ter déficit na produção agrícola, espe-cialmente nos países do Sudeste Asiático e na China. Nessas regiões, as terras agricultáveis não são suficientes para produzir para a própria população. Serão, cada vez mais, grandes compradores de alimentos. 

DINHEIRO RURAL |   Boa parte dessas regiões é tomada por pequenos produtores, um setor de pouca importância para o sistema financeiro. Não é uma contradição?
BERRY MARTTIN |  Eu acho que o futuro da agricultura não está somente com o grande produtor. O futuro também está no compromisso de trazer o pequeno produtor para o sistema. O caminho, não só na Afriea, mas também no Brasil, são as cooperativas. O próprio Rabobank nasceu da união de pequenos produtores na Holanda. Uma das coisas em que acreditamos é que para ter sucesso   nossa história mostrou isso os produtores precisam de acesso a meios de pagamento e a, financiamento. Crédito, aumento da produção e mercado fazem parte de um mesmo ciclo e é nele que apostamos.