“Espanha deve pedir resgate até o fim do ano"

Valor Econômico

O alívio de curto prazo proporcionado pelo novo programa de compra de títulos soberanos no mercado secundário pelo Banco Central Europeu (BCE) dará tempo aos países para que façam a lição de casa. Todavia, a crise na zona do euro pode levar vários anos para ser debelada.

Essa é a opinião do economista sênior do Rabobank International, Elwin de Groot, para quem o mundo vive hoje "uma experiência monetária sem precedentes e por isso devemos ficar atentos". A seguir, trechos da entrevista concedida ao Valor pelo economista.

Valor: O senhor acredita que o OMT (novo programa de compra de títulos soberanos do BCE) proporcionará um alívio apenas de curto prazo? 

Groot: Nós vivemos diversos alívios de curto prazo no passado recente, como as rodadas de LTROs [operações de refinanciamento de longo prazo], e eles funcionaram, uma vez que ofereceram liquidez ao sistema bancário. Foram importantes, mas não providenciaram uma solução estrutural para o problema de solvência da Europa. O BCE comprou títulos de governos no mercado no ano passado sob o SMP [programa de compra de títulos no mercado secundário], mas não se tratava de um programa ilimitado e não foi suficientemente eficaz do ponto de vista do BCE. Esse é o motivo pelo qual eles lançaram o OMT. É claro que o OMT apresenta fortes semelhanças com o SMP, o que levanta dúvidas acerca de sua eficácia. O ponto chave é: o BCE afirmou que não há limite predefinido para as compras, tornando o programa mais crível e fazendo com que o mercado acredite que eles irão intervir até que os retornos dos títulos atinjam certo nível. Essa é a grande diferença. Há ainda a questão da condicionalidade, que essencialmente difere o OMT do SMP.  

Valor: A recente queda dos yields [retornos pagos ao investidor pelos títulos] não induziria os países a adiarem o pedido de resgate, caso, por exemplo, da Espanha? 

Groot: O risco agora é, obviamente, de o primeiro ministro espanhol Mariano Rajoy dizer: 'Nós precisamos fazer mais alguma coisa? Afinal, os yields já estão caindo'. Portanto, nós acreditamos que a incerteza persistirá enquanto a Espanha não pedir resgate. Para nós, não há dúvidas. Trata-se apenas de uma questão de tempo, talvez ocorra antes do fim do ano. A Espanha não tem condições de sobreviver sozinha, precisa dos mecanismos de resgate.

Valor: Qual o gatilho para um pedido de resgate da Espanha? O país teme que as condicionalidades sejam muito rígidas?

Groot: Com certeza eles têm medo. Mas a condicionalidade, em minha opinião, não será tão rígida. Isso significa que eles não terão que fazer muito mais do que aquilo que já prometeram cumprir. É bem provável, contudo, que haverá mais escrutínio sobre o que eles estão fazendo e mais gente opinando no que deveriam fazer. Na nossa visão, é preciso que haja certa dose de pressão por parte do mercado para que a Espanha faça as escolhas certas. Vimos os yields caírem, mas se Rajoy não se decidir nos próximos meses, haverá nova deterioração do mercado e mais pressão sobre ele.

Valor: Mas não há muito tempo para esperar, certo?

Groot: É verdade, eles não têm muito tempo. De certa forma, foram vítimas de uma espiral negativa nos mercados, o que levou ao rebaixamento da Espanha pelas agências de rating. Os yields soberanos e os custos de crédito subiram. Eles se tornaram vítimas de uma crise sistêmica, não apenas de uma crise de fundamentos. Durante essas crises, você pode fazer o que quiser com as políticas fundamentais: ser mais austero, cortar ainda mais as despesas, elevar o IVA, e, mesmo assim, os investidores vão pensar: 'isso está ferindo a economia ainda mais, vou vender os títulos desse governo'. Portanto, para lidar com uma crise sistêmica, é preciso que a Espanha peça ajuda de fora, mas é difícil acertar um "timing" para que isso ocorra.

Valor: Na situação hipotética em que a Espanha não solicita resgate formal, o que mais o BCE pode fazer para combater as incertezas na zona do euro?

Groot: Em nossa opinião, países como a Espanha e a Itália são muito grandes para quebrar. Não apenas em representatividade econômica, mas também para serem resgatados. Os mecanismos oficiais de resgate contam atualmente com € 500 bilhões. Nós calculamos que, se Espanha e Itália pedissem resgate direto aos fundos, sem o BCE, a munição dos fundos de resgate EFSF/ESM se esgotaria antes do fim do ano que vem. Politicamente, não é possível elevar essa capacidade para o tamanho necessário, pois estamos falando de € 1,5 trilhão a € 2 trilhões. Portanto, o papel do BCE é fundamental, afinal possui, em teoria, capacidade ilimitada para garantir que os yields não atinjam níveis insustentáveis. A questão curiosa é que, se você anuncia que tem capacidade ilimitada, você no fundo não precisa tê-la [porque os yields caem].

Valor: A Grécia está enfrentando dificuldades para atingir as metas impostas. O que poderia ser o gatilho para uma saída do país da zona do euro e, nesse caso, quais seriam as principais consequências?

Groot: Há motivos para acreditarmos que os custos de uma saída da Grécia estão sendo subestimados, mas os formuladores de política estão cientes desses potenciais custos. Estimamos que os custos da saída do país poderiam atingir € 500 bilhões para a zona do euro, isso considerando custos diretos e indiretos. Trata-se de uma quantia muito grande para um país tão pequeno. Esse é o motivo pelo qual cremos que os líderes europeus e o BCE não permitirão que a Grécia saia agora. Além do impacto direto, abririam as portas para que outros países seguissem o mesmo caminho. Se eles deixassem a Grécia sair da união monetária, poderíamos afirmar que o euro é reversível, e isso é exatamente o que Draghi está dizendo que não vai acontecer. Contudo, quando a Europa estiver em uma situação mais estável, daqui a dois ou quatro anos, pode ser possível que a Grécia tenha que deixar a zona do euro, pois sua dívida é insustentável.

Valor: Essa é, portanto, uma crise de décadas?

Groot: Certamente. Em termos de ajuste econômico, ainda temos um longo caminho a percorrer. Esse é um dos motivos pelo qual é preciso comprar tempo, o que teremos com as medidas tomadas agora. Acredito que precisaremos de, no mínimo, dois ou três anos para atingirmos uma situação econômica um pouco mais estável. Enquanto isso, devemos continuar a ver crescimento baixo na maioria dos países da zona do euro. Estamos em recessão neste ano e 2013 também será fraco. Temos ajustes dolorosos a fazer.